Conto: Em Família
Conto de Vinícius Ribeiro
O carro dava solavancos sem sair do lugar. Fernanda abriu a porta e desceu. As rodas traseiras estavam enterradas pela metade na areia. Protegendo os olhos do sol com a palma aberta, observou a paisagem. A estrada era estreita e sinuosa; em algumas curvas, bancos de areia se acumulavam. Atravessava uma mata de arbustos baixos e retorcidos. Em frente deles, acima de uma inclinação, uma fileira de palmeiras balançava ao vento; sob o sol a pino, quase não tinham sombra.
– Que calor!
O sobrinho também saiu do carro. “Eu falei para a senhora que não dava”, disse. De bermuda e regata, calçava sapatos grandes demais para a idade feito uma criança que ainda não terminara de crescer. Fernanda tentou fazer uma ligação, mas não havia sinal. Tirou do carro os óculos escuros e um chapéu.
– Logo alguém aparece para socorrer a gente. Seus avós ainda vão sair lá de casa – disse.
Pedro estava atrás dela tentando desenterrar as rodas com as mãos. Queria estar em casa. Lamentava o sol quente, viajar obrigado, agora atolar, e quanto mais pensava mais cavava, buscando ir embora o mais rápido possível.
– Quer caminhar? – sua tia perguntou.
Mas ele não respondeu. O descaso dela com a situação irritava-o. Olhava-a como se quisesse fulminá-la. Fernanda notou e achou graça. O sobrinho parecia um cachorrinho e o cenho franzido no rosto anguloso de adolescente lhe dava um aspecto cômico. Tirou as sandálias e se alongou na frente dele. Pedro viu que ela tinha todas as unhas pintadas de vermelho e minúsculas flores brancas se desenhavam nas dos polegares. A tia começou a andar em direção às palmeiras. Vestia uma camiseta branca e larga, de homem, deixando as coxas cor de canela à mostra. Sob o tecido, podia-se ver o biquíni bege. As solas dos pés se sujavam ao fazerem pegadas na terra. Pedro se acalmava pouco a pouco. Conforme a tia andava, o balanço da cintura fazia sua sombra se alternar de um lado para o outro, ora sobre uma perna, ora sobre outra. Ela já estava longe quando ele sentiu os ombros descobertos arderem ao sol. Tirou o tênis e correu até ela. Tropeçou no caminho, ralando os joelhos.
Sentaram-se debaixo de uma palmeira. Lá de cima puderam ver grandes lençóis de areia. O vento forte desgastava as dunas, criando novas ao lado, como se fossem ondas do mar um pouco mais pesadas. Aqui e ali piscinas naturais brilhavam feito espelhos.
– Como é bonito – ela disse. Chamou para se banharem. Ainda sentado, Pedro a observou se levantar e bater com as mãos nas pernas para se limpar da terra, e ficou com vergonha de se pôr em pé. Fernanda, vendo-o através dos óculos escuros, o estranhou. O sobrinho estava abraçado aos joelhos, emburrado. Ela o pegou pelo braço e o puxou. Surpreendeu-se com sua força. Escorregaram juntos para dentro de uma das piscinas. A água era rasa. Fernanda se deitou para mergulhar todo o corpo, depois emergiu. Pedro permanecia sentado com os joelhos dobrados para fora da água.
– O que você tem? Está passando mal? – ela perguntou, tirando os óculos para pendurar na gola da camiseta.
– Estou bem.
Fernanda se levantou e se curvou sobre o sobrinho para colocar a mão em sua testa, fazendo-o estremecer. A camiseta molhada pregava-se ao corpo da tia. Sob o tecido diáfano, Pedro distinguiu a silhueta do umbigo. O biquíni bege tinha quase o mesmo tom que sua pele. Desviou o olhar. O chapéu dela flutuava para longe.
– O seu chapéu – disse.
Fernanda esticou uma perna e pegou o chapéu com os dedos do pé. Após pegá-lo, manteve o pé levantado, massageando-o.
– Está doendo? – o sobrinho perguntou.
– Um pouco. Estou ficando velha.
– Posso massageá-lo para você?
Ela o encarou de cima. O sol batia na água e refletia-se em seu rosto. Estava vermelho. Fernanda mergulhou o pé de volta na água, criando pequenas ondas que se quebraram nos joelhos do sobrinho. Pensou em dizer alguma coisa. No entanto, vendo-o abaixar rapidamente os olhos, reparou nos cabelos escorridos sobre a testa, o corpo quase sem pêlos, os músculos marcando a pele pálida. Como ele havia crescido. Fernanda ensaiou uma fuga, mas hesitou. Sentou então à frente do sobrinho e colocou os pés sobre os seus joelhos. Disse que sim, que podia, e o sobrinho começou a massageá-los. Suas mãos tremiam. Tinha um ar de desamparo. Ficaram algum tempo assim, até que ela pediu para que parasse. Os joelhos dele estavam arranhados. Chegou mais perto para acariciar as feridas dele com a mão. Pedro acompanhava as flores brancas a balançarem. Ao redor, somente o vento soprava, fazendo areia escorrer aos poucos para dentro da piscina. Fernanda deslizou a ponta dos dedos para baixo e agarrou as panturrilhas do sobrinho por baixo da água. Estendeu as pernas dele por cima das suas e passou a puxá-lo lentamente para perto de si. Ele se deixou conduzir. Estavam quase se abraçando quando, das palmeiras, ouviram um grito e se assustaram.
– Oi, vocês dois! Achamos vocês!

